O Grande Teatro da "Reconciliação Nacional"

 

 Ah, o inesquecível 8 de janeiro! Aquele domingo em que a pátria, movida por um excesso de amor à pátria e à falta de um botão de desligar no celular, resolveu fazer uma reforma relâmpago nos três poderes. Um verdadeiro mutirão patriótico, com direito a mobília destruída, bostalive, estile em tapete persa e selfies no plenário. Arte moderna, chamaram. Performance sobre a fragilidade das instituições.

  Mas a peça, como toda boa tragédia, tem vários atos. E o segundo ato é, convenhamos, muito mais chato que o primeiro. É a fase do "não fui eu", do "a culpa é do diretor" e do "você não entende minha arte".

  Os mesmos artistas do caos, aqueles que há poucos meses berravam por intervenção militar e fechamento do STF, agora se apresentam como estadistas. Trocaram o capacete de aço pela cartola de mágico. Sua nova mágica? Fazer sumir o crime de golpe de estado e tirar da cartola um "grande mal-entendido".

 É a fase da negação nacional. Eles não invadiram, "ingressaram". Não depredaram, "manifestaram descontentamento com a arquitetura". Não queriam um golpe, queriam apenas "um abraço" nas instituições – um abraço tão forte que quebrou portas, janelas e a verdade.

 Seu projeto de poder agora é um grande teatro do absurdo. A plateia, somos nós. E o enredo é de dar dor de cabeça.

 Eles criaram o Foro de “Dispostos” ao Golpe. Enquanto o original supostamente conspira em salas fechadas, este aqui conspira a plenos pulmões na TV e no X (antigo Twitter). Sua missão: reescrever a história com uma ginástica mental olímpica. O golpe vira "ação patriótica". O vândalo vira "preso político". E o ministro que prende vira "ditador".

  Na Câmara dos Deputados, a trágica comédia é ainda mais ácida. Eles propõem CPIs para investigar… quem prendeu os golpistas! Claro! A verdadeira vítima não é a democracia, mas o direito sagrado de invadir e quebrar tudo. É a velha tática do "não olhe para o que fizemos, olhe para como foram rudes ao nos impedir de continuar quebrando".

 E o ápice do espetáculo: os projetos de anistia. Sim, anistia para quem tentou acabar com o regime que permite existir… projetos de anistia. A ironia se suicida aqui. É como dar um prêmio de consolação para o assaltante que falhou em roubar o banco porque escorregou no sabão que ele mesmo derramou.

 Eles não desistiram, não. Apenas trocaram as ferramentas. A marreta foi aposentada. Agora, usam o microfone e o projeto de lei. O objetivo final é o mesmo: chegar ao poder não para governar, mas para assinar os indultos, soltar os "camaradas" e, quem sabe, dar início à verdadeira "limpeza" que aquele domingo de verão não foi capaz de realizar.

 É o golpe de estado em parcelas. Sem juros. E com um discursinho de "reconciliação nacional" que é tão falso quanto nota de três reais.

 A democracia brasileira, nesse momento, não precisa se defender de homens maus armados com cabos de vassoura. Precisa se proteger de homens maus armados de canetas e má-fé. E estes, meus amigos, são infinitamente mais perigosos.

 Sem Anistia

 Albert Ramos

 Setembro 2025



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