Por que alguns escolhem o mal mesmo tendo sido codificados para o bem?

Desde a infância, somos moldados por códigos invisíveis — gestos, palavras, exemplos e silêncios — que formam o nosso "estilo humano". Muitos desses códigos nos orientam para o que é considerado socialmente bom: solidariedade, empatia, honestidade, respeito. São valores transmitidos por pais, professores, vizinhos, livros, histórias e experiências que, juntos, constroem o alicerce moral que carregamos pela vida.

Há pessoas que, mesmo cercadas por códigos positivos, escolhem ser más. E há outras que, mesmo expostas à dor, à injustiça e ao abandono, escolhem ser boas. O que determina essa virada?

A resposta não está apenas nos estilos recebidos, mas também na capacidade interna de processar, selecionar e transformar esses estilos — o que chamamos de consciência, intuição ou, em termos mais profundos, livre-arbítrio.

Eu mesmo sou uma pessoa boa. Fui codificado por isso. Ao longo da vida, fui exposto a estilos diversos, mas optei por seguir aqueles que preservam a dignidade, que constroem e não destroem. A minha intuição — talvez uma bússola ética natural — rejeitou estilos nocivos. Outros não fazem essa escolha. Por quê?



A quebra da codificação: quando o bom não basta

A pessoa que foi criada com amor, que teve acesso a valores éticos e ainda assim escolhe o caminho da maldade pode ter sido afetada por um fenômeno silencioso: a desilusão com o próprio bem. Quando o bem é apresentado de forma moralista, punitiva ou hipócrita, ele pode gerar repulsa. Quando quem ensina o bem é, na prática, cruel, omisso ou corrupto, a mensagem perde sua força e pode até causar o efeito oposto.

Outros se tornam maus por sentirem-se impotentes diante de um mundo injusto, onde o mal parece sempre vencer. Optam pela desonestidade por acreditar que a bondade é ingenuidade, ou que a vida é uma selva e só os espertos sobrevivem.

Há também os que foram bons por muito tempo e se cansaram. Foram explorados, traídos, humilhados — e, em algum momento, algo quebrou por dentro. Não que essas dores justifiquem a maldade, mas ajudam a entendê-la como uma escolha moldada por vivências dolorosas mal elaboradas.

Nem todo bom é bom. Nem todo mau é mau.

A grande tragédia moral da humanidade talvez seja essa: a desconexão entre aquilo que recebemos e aquilo que escolhemos fazer com o que recebemos. E também o fato de que os códigos morais são frágeis, sujeitos a interpretações,

Manipulações e traumas.

O bem precisa ser mais do que um código herdado. Precisa ser uma escolha viva, alimentada por empatia real, justiça prática e coerência. Só assim será possível romper o ciclo de traições morais que nos cercam.

Seja qual for o estilo que a vida lhe deu, a escolha final será sempre sua.


O ser humano é, acima de tudo, um editor de si mesmo.



Albert Ramos

Julho/2025

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